terça-feira, 11 de setembro de 2007

Amar...

Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor,
ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor a procura medrosa,paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossaamar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade


"A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original."
Albert Einstein