Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,é sal, ou precisão de amor,
ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,e na concha vazia do amor a procura medrosa,paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossaamar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Amar...
Postado por
Alanda
às
8:03 AM
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Um comentário:
Olá.
O texto está espectacular.
: )
Bjs e continua assim.
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